Desde a fria estação de comboio, até ao quente e confortável apartamento, 5h os separaram. Três delas passadas a carregar os simpáticos 30kg de bagagem que coube a cada um de nós e 2h no estreito vão de escada de um dos prédios de apartamentos da Reservikomppaniankatu. Findo esse período, os confortos de 4 paredes que nos protegessem do frio , um banho quente e uma cama fizeram as nossas delícias.

 Reservikomppaniankatu

A nossa Reservi!!

 

 

Após algum tempo de descobrimentos, tal e qual Vasco da Gama a dobrar o cabo das tormentas, e com 20 graus negativos, encontrámos o caminho para as Índias: Supermercados, Escola, Biblioteca (onde tínhamos o único acesso às tecnologias da informação), Hospital, Polícia, etc.

Durante as nossas cruzadas pela tundra urbana gelada, pudemos constatar que as espécies Homo Sapiens autóctones não saíam das tocas de madeira onde viviam, sendo nós os únicos bípedes que desbravavam o frio cortante em caminhadas de duas horas.

O tuga é por si só um ser adaptado a sobreviver em condições extremas como já se sabe, porém e após alguma pesquisa bibliográfica da evolução do homem ao longos dos tempos, pudemos constatar que o “Homo Erasmus” é um ser extremamente resistente e evoluído, dominante perante as demais subespécies.

 

 

erasmus

(Fig 1. – Evolução Humana ao longo dos últimos muitos milhares de anos).

 

Arrumemos a Antropologia, ao lado da História de Portugal, do último post. Adiante!

Devem querer saber quantos Finlandeses nos receberam de braços abertos assim que nós, Tugas de espinha e sangue, chegaram a este cantinho da Europa tão perto do círculo polar ártico, certo?

Finlandeses não direi, mas sem dúvida tivemos umas belas boas vindas Russas, Húngaras, Belgas , e é claro : Tugas, que já cá residiam!

Dos finlandeses quero deixar aqui a homenagem a E., aquela pessoa que nos tirou da idade da pedra e nos devolveu a felicidade e conforto que temos nos nossos lares quando estamos de rabo sentado em frente ao monitor do pc, a utilizar o MSN Messenger até ficarmos com o dito cujo quadrado : Muitos e Muitos Kiitos!

 Pois é, na Finlândia não se pode fazer nada além de comprar comida, sem possuir um número de segurança social. Nada que a lata histórica de D. Sebastião ao sair de Alcácer-Quibir sem avisar ninguém, não nos tenha preparado para pedir a um Finlandês (que neste caso até é “…desa”).

Além de visitarmos os arredores e das viagens à Escola de Enfermagem de Kemi e das reuniões com a nossa Tutora a primeira semana em Kemi pode-se resumir a uma coisa:

 

 

party

“Let’s gonna party yeah, let’s gonna party!”


Momentos Multiculturais únicos, com uma maioria Russa e Portuguesa e Minoria Finlandesa!

A pequena húngara sempre presente, os sempre disponíveis Romenos e os novos Belgas também nos seguiram… et voilá : 27 pessoas no mesmo apartamento! Penso que os únicos dias sagrados, segundo a religião dos “festeiros locais” são segundas e terças, sendo estes momentos dedicados à reflexão espiritual e encontros sociais tendo por base bebidas não alcoólicas como o chá.

O termo “mi casa es tu casa” nunca foi tão real como na nossa Reservi. Após algumas aulas intensivas, todos os bares e discotecas de Kemi são-nos agora familiares, e regojizem-se membros do sexo masculino : Aqui não pagamos mais por termos este cromossoma Y! Não há ladies night e elas pagam tanto como nós para entrar, variando os preços entre 2,5 a 4€ com cabide para roupa incluído.

E a beleza natural? Ninguém fala dela? Perguntam-se vocês, leitores assíduos!

Vamos então fazer uma pequena viagem e começar pela beira mar em Kemi

O Mar de Kemi O que se vê na imagem acima é um pequeno cais para barcos de recreio protegido por um pontão, presenteados pela visão deslumbrante de uma ilha que surge ao fundo da paisagem.

 

Repare-se que qualquer pedaço de água, ainda que salgada encontra-se congelada, com 40 cm de gelo (segundo o único Finlandês que nos deu boleia até hoje), podendo-se circular a pé até à ilha.

Pudemos observar dois intrépidos lançadores de papagaios que deslizavam sobre o mar gelado enquanto tentavam, com pouco sucesso, que a sua construção de lona e plástico levantasse finalmente voo.

O vento gelado, que insiste em nos cortar a pele que se levanta por altura do pôr do Sol, convida-nos a abandonar o local e a seguirmos viagem rua acima.


A bela e majestosa torre cor-de-rosa, da única igreja cor-de-rosa de Kemi surge imponente a cerca de 500 metros da paisagem costeira

 

Pink Church

 

 

Somos então brindados com um espectáculo de luzes vermelhas garridas que cobrem todo o céu em redor, que se tornam mesmo nos seus momentos finais de um azul escuro gélido.

 

São 3 as ruas principais de Kemi, a rua dos correios , a rua das lojas e a a rua da biblioteca: Aqui uma pequena cidade de prédios de 3 andares nos quais não podem deixar de existir os restaurantes chineses da praxe, mostram-se timidamente entre os flocos de nevem que caiem do céu , tal e qual como os seus habitantes.

 

As casas feitas de madeira cujo tempo foi gastando a tinta que as cobria, com os seus jardins e as suas cercas brancas integram-se na paisagem de árvores como se tivessem tido origem da própria terra coberta de gelo e neve.

Hidding House

 

Da Reservi até ao Hospital de Kemi é um pulo de 40 minutos em caminhada. Esta bela, mas pequena semana de férias chegou rapidamente ao fim, tendo iniciado a minha prática na Unidade de Cuidados Intensivos

Despeço-me com uma foto destes dois tugas nas suas viagens à descoberta de Kemi, com promessas de updates mais frequentes, visto finalmente termos conseguido esse bem essencial em cada residência: A internet!

 Lost Tugas

Até breve!

C.

 

Este foi o título com o qual, generosamente a condecorei: partindo de Lisboa às 6h50 de dia 1 de Janeiro, a chegada em Kemi deu-se às 7h30 a 2 de Janeiro.

Partindo da Portela de avião, cerca das 10h30 aterrávamos em Frankfurt. Os Alemães, pessoas simpáticas, cuja distância entre as suas bases de apoio e a sua extremidade encefálica, me fizeram sentir em casa.

Após comer um croissant, tão tipicamente alemão como a salsicha, comprei uma garrafa de água de 0,5l pela módica quantia de três euros. Paguei cinco euros, no total, pela saborosa refeição de croissant e água, que é o famoso “ a pão e água” português, mas na versão utilizada nas prisões francesas. Sentado, enquanto me deliciava com semelhante iguaria de produtos gourmet, e olhando pela janela, resolvi tirar algumas fotos a aviões que passavam na pista

Frankfurt

Após 1h de atraso, uma voz monocórdica de um altifalante que parecia falar algo entre japonês e russo disse “beca beca beca Helsinki, gate 16”. Então, lá se deu início à corrida do gate 29 para o 16, e diga-se de passagem que o aeroporto de Frankfurt é ao estilo dos seus habitantes: Comprido como o raio!

O resto da viagem decorreu sem intercorrências e chegados a Helsínquia, e com malas a serem arrastadas procurei um balcão de informação juntamente coma minha colega de viagem.

Como queria impressionar a Sra que me devolvia um sorriso do seu balcão, usei do Inglês em vez do Finlandês para comunicar. Perguntei como poderia ir do aeroporto até à estação de comboio de Helsínquia, onde apanharia o comboio para Kemi. Muito bem impressionada, a Sra responde algo que se assemelhou a uma mistura de Finlandês com Inglês. Provavelmente por me ter confundido com algum nativo, erro comum! Os meus olhos azuis e cabelos loiros só não iludem os mais perspicazes. De qualquer forma , da conversa travada eu, e a minha colega entendemos algo como : “sair do aeroporto, ir para plataforma 22, apanhar autocarro 51”.

Pude reparar ao sair do aeroporto que havia alguns traseuntes de acordo com estereótipo “louro e de olhos azuis” que esperava dos nativos, mas na realidade a maior parte fazia-me pensar que me encontrava em algum país oriental, algures entre a China, Índia ou Rússia (e que afinal nem são tão longe assim no mapa). Não fosse a neve a marcar presença no chão, já estaria a fazer planos de ir perguntar onde era o autocarro para Nova Deli. Pouparia imenso dinheiro em viagens futuras, mas estava mesmo na Finlândia em Helsínquia ou “Helsinki” segundo murmuravam os helsinkianos.

 

 

Resolvemos ignorar as indicações da Sra. das informações e achámos por bem, que a plataforma 21 era mais simpática que a 22 e que o autocarro cujo número tinha três dígitos, deveria ser melhor que o outro que até só tinha dois. Afinal, tuga que é tuga tem um sentido pombo correio para transportes públicos quando vai de férias para terras desconhecidas. Não importa a opinião de quem lá more à duas décadas, isso não chega para igualar o sexto sentido português do “desenrasca”: Séculos de experiência passados de geração em geração desde Afonso Henriques, que se perdeu para sul na península Ibérica. Ele não foi perguntar direcções a mouro algum que lá morava pois não?! Foi só seguir direitinho até ao Algarve, pois afinal os mouros não sabiam pêvas! Ainda andava hoje o homem por aí perdido se fosse confiar nas indicações dos mouros. Bem deixemos a história, adiante!

O autocarro partiu em direcção à estação de comboio de Helsinki (é muito mais fashion escrito assim, em comparação a escrever Helsínquia). Pela sua forma de condução, descobrimos que o condutor do autocarro seria luso-descendente. Infelizmente estávamos com pressa e não tivemos tempo para convidar o Sr. para uma amigável sardinhada com tinto.

Chegámos à estação de Kemi e arrastámos os 30kg de bagagem que cada um de nós carregava escadas acima para o interior do edifício.

Helsinki Train station

Dirigimo-nos a um balcão para tratar do cartão de transportes para estudantes, mas faltava-nos uma fotografia para o passe de cada um. Felizmente existia num canto recôndido, uma cabine de fotografias , relíquia da segunda guerra mundial que perdura.

Cada flash dentro da cabine era como se estivesse a ser transportado para a guerra do golfo, onde fuzis era lançados, luzes brilhantes piscavam pelos céus e ouvia-se o “rataaaatatataaaaa” das metralhadoras. Porém se abrisse a cortina da cabine, e olhasse em meu redor percebia-se que me encontrava de facto na velha URSS, e que toda aquela acção bélica era uma parada militar.

Ah sim, das 4 fotos que cada um de nós tirou, só se aproveitava uma para o passe , onde não demonstrámos a face de terror que sentimos perante o fogo inimigo.

O comboio para Kemi partia da plataforma 6 às 21h30. Cerca de 10 minutos antes, dirigimo-nos para o local, e na plataforma 7 encontrava-se um comboio moderno, de dois andares que parecia muito confortável com bancos de pele e mesas para jogar cartas. Na plataforma 5, repousava uma composição de carruagens que pareciam ter pulado para fora de algum livro como “The Orient Express”, se é que tal livro existe!

 

Findos os 10 minutos somos assombrados, tal como no aeroporto de Frankfurt, por uma voz monocórdica nos altifalantes que dizia : “Bzzzz beca beca beca plataforma 5 beca beca beca” – Isto sem tradução posterior para inglês.

Expresso do Oriente

Sem percebermos a mensagem do altifalante, olhámos para a massa de pessoas que estava no cais de embarque e que se apressava a sair deste e a dirigir-se para aquele comboio fantástico: O expresso do Oriente. No seu interior, viam-se bancos de pele azul, muito gasta pelo uso, braços de madeira luzidia torneada, um frio interior metálico amarelado, e tecto verde, apenas contrariado pela presença dos aquecedores inferiores a cada uma das janelas. A luz amarelada, iluminava rudemente as divisões, certamente não iria ler um livro, mas também o que queria mais naquele momento era tentar dormir durante a viagem.

Entrámos, procurámos os nossos lugares e ao encontrá-los reparámos existir uma estante metálica para malas por cima dos bancos. Perante as dificuldades em colocar as malas neste local pudemos contar com o sentimento de camaradagem dos restantes viajantes que bocejavam ao mesmo tempo que produziam comentários (que ainda neste momento desconheço) entre eles , sobre os nossos esforços.

E deu início a viagem durante dez loooonnnngas horas nas quais tentei por várias vezes que o joão pestana me viesse buscar,experimentando um número maior de posições do que as descritas como possíveis no Kamasutra.

O comboio parou por vários vezes por períodos de trinta minutos a uma hora em diversas estações durante o percurso, onde entravam vários passageiros de mala às costas e ar de quem também não via uma cama e outros confortos à algum tempo.

Devido ao cansaço que já se acumulava de tantas horas de viagem, parecíamos em conjunto com os restantes passageiros como um grupo de Hippies com penteados a condizer, na sua “pão-de-forma”, Wolkswagen van bem velhinha, a caminho de woodstock ou coisa que lhe valha.

Por volta das quatro da madrugada, (não, não foi só para condizer com o blog, a vida é feita de coincidências mesmo) farto de tentar dormir, a sensação de estômago vazio teimava em existir. Pé ante pé levantei-me e tendo o cuidado de me desviar dos pés incautos e pendurados para fora cada banco da carruagem, de todos aqueles que teimavam em dormir, desloquei-me para o vagão seguinte. Isto tendo o cuidado de não partir uma perna ao escorregar no gelo que decorava a passagem entre cada carruagem. Achei um pequeno bar seguindo o cheiro a café quente que se sentia desde a porta, onde comprei uma sandes de mozzarella com tomate e molho pesto e um pacote de pringles.

Saciado, voltei para o meu devido lugar e lá permaneci a restante viagem onde acabei por adormecer por um par de horas.

7H30 chegadas, eis que a carruagem cessa o seu movimento pendular, e detém-se perante a tabuleta da estação de Kemi. Retiramos as malas do seu sítio, e carregamos os seus 30kg do comboio para a camada grossa de gelo que cobria o chão cá fora.

Kemi

Finalmente havíamos chegado, finalmente a um passo de um bom banho, uma chavéna de chá decente e uma noite bem dormida, ou assim pensei eu…

PS- ainda não temos internet no apartamento, pelo que os updates poderão ser demorados.

 

 

 

 

C.

aeroporto

 24h faltam para o desembarque na Normandia. Quase todos os utensílios possíveis e imagináveis encontram-se dentro da mala de viagem, a mesma que não pode exceder 20kg por passageiro. Não é tarefa fácil, se pensarmos que o recheio consiste em roupa de Inverno suficiente para praticamente quatro meses de ausência nas estâncias de férias do Pai Natal: Finlândia!

O meu Finlandês também já se encontra enferrujado (por falta de prática claramente!!!), e por isso acho que não irei sobreviver apenas contemplando livros de Enfermagem em “Finnish”, de alguma biblioteca, esperando que estes me inundem com a sua sabedoria. Será mais fácil sair de lá como um snowboarder profissional do que a conseguir ler algo que se assemelha a… húngaro?!  e em linguagem científica. Não estou com isto a ocorrer em estereótipos. Limito-me a citar o que outro turista Português perdido em Helsínquia sentiu,  que assim justificou como a língua Finlandesa se distinguia da Sueca ou Norueguesa.

Nos últimos dias em Portugal o tempo passou a correr: Era acordar de manhã, ir tratar de assuntos pendentes para a partida… e chegar a casa e dormir… pouco. Ok, também tinha que haver espaço para as despedidas de todos os amigos que cá deixo, e terei muitas horas de viagem (23h para ser exacto) onde poderei por o sono em dia.

Outra lição, que já é velhinha: Por muito cedo que se comece a tratar de todos os assuntos pendentes, acabam sempre por se extender, inevitavelmente até ao último minuto que antecede a partida (E com isto ainda me esqueço da escova de dentes).

Assim tudo está no sítio, no meu quarto impera o caos, e calma que seria de esperar após um tornado ter passado por dentro do mesmo.  Só as malas de viagem se destacam, no meio da confusão como resistentes a toda esta entropia no ambiente em seu redor.

Se considerarmos o meu quarto um sistema fechado:
termodinamica

Facilmente chega-se à conclusão que não sou uma pessoa desarrumada! Sou sim, e apenas,  mais uma vítima dessas leis da Termodinâmica que apanham sempre pessoas inocentes pelo meio.

Memórias da FCUL à parte: Sendo 6h50 no 1º dia de 2009, estarei de partida!

Isto,se não ficar retido no aeroporto por ser parecido a algum terrorista islãmico, com direito a uma viagem de férias gratuita para guantanamo. Ou então, porque aquele ovo caseiro no delicioso pequeno almoço de panquecas de segunda-feira (momento quase digno de ser descrito num livro de Nicholas Sparks) finalmente levou a melhor sobre mim, e o meu sistema gastro-intestinal caiu por terra.

 lastaeroportoAté Breve!

C.

Olá mundo dos Blogs e blogomaníacos!

C.

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